sábado, 14 de agosto de 2010

REVOLTAS DE UM PERÍODO CHAMADO ... REPUBLICA VELHA

Guerra do Contestado

Ao longo de sua História a região do Contestado foi alvo de sucessivos episódios de disputa política e econômica. Localizada entre os estados do Paraná e Santa Catarina, a região foi marcada por essas disputas em razão da presença de uma rica floresta e uma grande região dedicada à plantação de erva-mate. Uma das mais imediatas manifestações desse problema se dava na pressão exercida pelos grandes proprietários de terra que forçavam agregados e posseiros a se estabelecerem em outras terras.


Além disso, a construção de uma estrada de ferro interligando os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul agravou o problema social ali instalado. Sob a liderança do empresário estadunidense Percival Farquhar, a Brazil Railway Company comprou uma extensa área para construção desta estrada, onde diversas famílias já estavam instaladas. Após viabilizar o processo
 de desocupação das terras, a companhia atraiu a mão-de-obra de mais de 8 mil operários que participaram da gigantesca obra. 



VEJA UM FILME  SOBRE  ESTA GUERRA :







Depois de realizar a construção, a Brazil Railway adquiriu uma outra área com mais de 180 mil hectares onde realizaria exploração madeireira. Utilizando um moderno maquinário para a execução desse novo empreendimento, a empresa estrangeira precisou de um contingente mínimo de mão-de-obra, o que acabou forçando a expulsão de outra leva de pequenos agricultores que também estavam fixados naquela região. 

Com a formação dessa massa de operários desempregados e camponeses desapropriados, a região do Contestado começou a presenciar um movimento messiânico. Diversos profetas, beatos e “monges” apareceram pregando ideais de justiça, paz e comunhão que seriam estabelecidos em um movimento de inspiração religiosa. O primeiro desses líderes foi o beato José Maria, que atacava o autoritarismo da ordem republicana e pregava novos tempos de prosperidade e comunhão espiritual.
 

Inspirado pela lenda messiânica do antigo rei português Dom Sebastião, José Maria agrupou diversos seguidores para a fundação da comunidade de Quadrado Santo, que viveu da agricultura subsistente e do furto de gado. Preocupados com a formação de comunidades desse mesmo tipo, os governos estadual e federal passaram a enviar expedições militares contra a população de Quadrado Santo. Ao saberem da ação do governo, os sertanejos fugiram para a cidade de Faxinal do Irani, no Paraná.
 

Após essa fuga, ainda no ano de 1912, um novo destacamento militar foi mandado para entrar em conforto com os seguidores de José Maria. Durante os conflitos, as tropas federais foram derrotadas, entretanto o líder espiritual acabou morrendo. Após esse primeiro confronto, os rebeldes começaram a reorganizar a comunidade de Quadrado Santo. No final do ano seguinte, uma nova luta foi travada com os militares e, mais uma vez, a comunidade do Contestado subjugou as autoridades republicanas.
 

Em 1914, o governo mais uma vez foi neutralizado com a fuga em massa dos moradores do contestado. No ano seguinte, outros confrontos seriam marcados com sucessivas derrotas do Exército. O já prolongado conflito só veio a ter um fim quando as tropas do governo foram mantidas por mais de um ano em confrontos regulares contra a comunidade revoltosa. Para tanto, utilizaram de aviões e uma pesada artilharia. No fim da luta, em 1916, milhares de sertanejos foram brutalmente executados.


 Revolta da Armada


Floriano Peixoto vence a Revolta da Armada com amplo apoio da população.
O controle dos militares durante os primeiros anos da República não manifestava a total convergência desta classe em torno dos mesmos interesses. No governo de Floriano Peixoto, a renovação dos quadros políticos nacionais e regionais abria espaço para a ascensão dos civis ao poder, sobretudo dos grandes cafeicultores ligados ao Partido Republicano Paulista (PRP). Tal medida desagradava muitos militares, principalmente da Marinha, que defendiam a manutenção dos militares frente ao governo. 


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Foi nesse contexto que o almirante Saldanha da Gama e Custódio de Mello, então Ministro da Marinha, arquitetaram um movimento contra o governo Floriano Peixoto. Para justificar sua ação, os revoltosos denunciavam a ilegalidade do governo de Floriano. De acordo com o texto constitucional, o vice-presidente só poderia assumir o governo após dois anos de cumprimento do mandato presidencial, caso contrário, novas eleições deveriam ser preparadas.
 

Floriano Peixoto, que assumiu após alguns meses do governo de Deodoro da Fonseca, alegava que essas orientações
 constitucionais não se aplicavam ao seu governo, pois o mesmo foi instaurado pelo voto indireto. Mesmo apresentando tal justificativa, os militares insatisfeitos trataram de organizar os navios em seu poder e apontar seus canhões em direção à Capital Federal. Floriano Peixoto, confiante com o apoio político que possuía, decidiu não ceder às imposições da Armada. 

Dessa maneira, em 13 de setembro de 1893, os navios sob o poder dessa revolta abriram fogo contra a cidade do Rio de Janeiro. Até março do ano seguinte os conflitos se desenvolveram com a resposta terrestre dada pelas fortalezas e exércitos que defendiam o mandato florianista. Diversos voluntários se apresentaram para defender o governo, tendo grande importância ao proteger a região de praia da cidade e impedindo que os revolucionários desembarcassem.
 

Alguns dos participantes da revolta, ainda tentando resistir às tropas governamentais, abriram novas frentes de batalha na região sul. Esse novo foco de resistência apareceu graças aos participantes da Revolução Federalista que ocorria no Rio Grande do Sul. O governo acabou sufocando esses dois levantes com apoio das classes médias e dos cafeicultores paulistas. Prestigiado por suas amplas alianças políticas, Floriano Peixoto – o “marechal de ferro” – tornou-se um “defensor da República”.


 Revolta de Juazeiro

Ao adentrarmos à República Oligárquica, observamos que as instituições políticas eram amplamente dominadas por uma elite proprietária de terras localizada na parte rural do país. Observando essa configuração, incorremos no fácil equívoco de se concluir que as elites pensavam de um mesmo modo e, por tal razão, se alternavam no poder sem maiores contendas. Analisando as práticas da época, notamos que a natureza excludente do cenário político era capaz de nutrir a rivalidade no interior das próprias elites.



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No governo do Marechal Hermes da Fonseca, por exemplo, a chamada política de salvações impôs a deposição dos governos estaduais e locais que não estivessem declaradamente apoiando o governo central. Em estados como Alagoas, Pernambuco e Bahia, notamos que a interferência acabou surtindo efeito. Contudo, outros estados acabaram resistindo a ação autoritária do presidente através da organização de levantes e outros episódios de conflito.
No Ceará, Franco Rabelo recebeu o apoio de Hermes da Fonseca contra o tradicional domínio da família Acioly no estado. Mediante a ação do governo central , os antigos detentores do poder acionaram a figura política e religiosa do Padre Cícero, mais conhecido como “Padim Ciço”, para mudar os destinos da intervenção oficial. Nessa época, o clérigo em questão tinha um forte apelo entre as camadas populares cearenses, principalmente da região de Juazeiro do Norte, sendo considerado um homem santo.
Em um tempo em que a miséria e a demagogia imperavam com grande força entre a população mais humilde, a conclamação do Padre Cícero para a guerra acabou sendo prontamente respondida por uma grande quantidade de sertanejos armados. Naquela situação, o uso das armas não exprimia a defesa de uma perspectiva política. Muitos daqueles sertanejos, ao cumprirem o chamado do afamado padre, acreditavam estar executando uma reivindicação de ordem divina.
Ao fim dos combates, deflagrados em 1914, o presidente acabou sendo obrigado a se subordinar ao retorno dos Acioly ao governo cearense. Valendo-se da fé alheia, a antiga oligarquia interrompeu a ação da “política salvacionista” autoritariamente implantada naqueles tempos. Por meio dessa situação, podemos perceber que o regime oligárquico não pode ser visto e analisado como um bloco hegemônico. Por sua forte natureza imobilista, o tempo das oligarquias abria campo para tais contendas internas.

 Levante do Forte de Copacabana


”Os 18 do Forte”: a insatisfação militar contra o predomínio das oligarquias.
Conhecida como uma das primeiras manifestações do movimento tenentista, o Levante do Forte de Copacabana foi uma das mais significativas demonstrações de crise da hegemonia oligárquica. Esta revolta foi ambientada no ano de 1922, período em que acontecia a campanha de sucessão ao governo do presidente Epitácio Pessoa. A disputa eleitoral envolveu Artur Bernardes, representante da oligarquia paulista, e Nilo Peçanha, apoiado pelos militares e oligarcas dissidentes do Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. 


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Derrotados na disputa eleitoral, os tenentes se sentiram profundamente frustrados com a perpetuação de mais um representante das oligarquias. Foi nesse momento que uma série de cartas falsas, supostamente escritas por Artur Bernardes, dirigia várias críticas à ação política dos oficiais do exército. Ao mesmo tempo, havia um descontentamento geral contra o novo governo em uma época em que a população sentia profundamente as mazelas causadas pelo conservadorismo político-econômico dos oligarcas.
 

Nesse clima de insatisfação geral, alguns militares de baixa patente organizaram levantes em instalações militares do Rio de Janeiro, Mato Grosso e Niterói. Na verdade, a agitação desse militares somente tomou corpo depois que o marechal Hermes da Fonseca foi preso após criticar o processo eleitoral que garantiu a vitória de Artur Bernardes. Entre os diversos focos de revolta, o mais grave aconteceu na capital, no interior das instalações do Forte de Copacabana, em cinco de julho de 1922.
 

Controlados sob a liderança de Euclides Hermes da Fonseca (filho do marechal) e Siqueira Campos, os militares amotinados apontaram seus canhões em diferentes pontos do Rio de Janeiro. Segundo relato, a intenção desses revoltosos era de tomar o Palácio do Catete e colocar Hermes da Fonseca como presidente provisório. Nesse meio tempo, os votos da última eleição seriam recontados para que se acabassem as suspeitas de fraude que marcaram aquela disputa.
 

Temendo o poder de reação do governo, os líderes do Forte permitiram que aqueles soldados que não quisessem participar do levante saíssem do local. De todos os 300 amotinados ali encontrados, somente vinte e oito resolveram permanecer no conforto. Com a imensa deserção acontecida, Euclides Hermes da Fonseca resolveu sair do Forte para tentar negociar com o governo. Após sua saída, foi imediatamente preso e o prédio bombardeado pelas tropas governamentais.
 

A intensificação dos ataques forçou o pequeno grupo a abandonar o Forte de Copacabana. Entre todos os participantes, somente dezessete resolveram seguir em frente com o arriscado plano. A caminho do palácio, os militares ganharam o apoio de um civil chamado Otávio Pessoa. Assim, os “18 do Forte” saíram pela Praia de Copacabana dispostos a enfrentar as tropas do governo. No confronto, dezesseis deles foram mortos. Eduardo Gomes e Siqueira Campos acabaram presos.
 

Apesar da eficiente represália das tropas oficiais, o evento dos “18 do Forte” inspirou outros indivíduos ligados ao Exército a darem continuidade ao movimento tenentista. Dois anos mais tarde, novos incidentes envolvendo os militares mostrariam, mais uma vez, a crise que acometia os grupos políticos vinculados às oligarquias. Sinais de que os anseios políticos da época passavam por uma séria transformação e que os cafeicultores não poderiam assegurar sua própria hegemonia.


 Revolta da Chibata

 João Candido organizou uma revolta contra os desmandos do governo oligárquico.No início do século XX, os marinheiros brasileiros eram submetidos a uma dura rotina de trabalho e recebiam salários baixíssimos. Não bastando, os membros de baixa patente eram submetidos a castigos físicos toda vez que não cumpriam uma ordem estabelecida. Apesar de a prática ser proibida desde o fim do Império, era comum que os marinheiros recebessem chibatadas como forma de punição.


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Em 1910, sob comando de um marujo negro e analfabeto chamado João Candido, os marinheiros dos couraçados Minas Gerais e São Paulo organizaram um protesto. Neste, tomaram o controle das embarcações e enviaram um telegrama ao presidente exigindo que os castigos fossem abolidos, os salários incrementados e uma folga semanal concedida a todos os marinheiros. Se não tivessem seu pedido imediatamente atendido, ameaçavam bombardear a capital.

Mediante a gravidade da situação e o alarde dos grupos políticos oposicionistas, o governo decidiu atender aos pedidos. Em poucos instantes, o Congresso votou uma lei em que o castigo físico era abolido e todos os envolvidos na revolta não sofreriam qualquer tipo de punição. Entretanto, revelando sua face autoritária, o governo descumpriu suas próprias determinações ao realizar a prisão de alguns dos participantes dessa primeira revolta.

A mudança aconteceu quando, alguns dias antes, provavelmente empolgados pela primeira revolta, um grupo de fuzileiros navais alocados na Ilha das Cobras resolveu organizar uma nova manifestação contra o governo. Dessa vez o Exército foi enviado para um violento ataque a fim de aniquilar prontamente os rebeldes. Aqueles que sobreviveram ao episódio foram deportados para a Amazônia e forçados a trabalhar nos seringais da região.

Durante a realocação para o território amazônico, alguns dos condenados foram submetidos ao fuzilamento. João Candido acabou sendo inocentado pelo governo federal. Entretanto, perdeu a sua colocação na Marinha e foi internado como louco no Hospital dos Alienados. Na época, o tratamento no sanatório poderia ser tão ou mais cruel que a própria prisão. Em 1969, ele acabou morrendo pobre, esquecido e acometido por um câncer.


 Revolta Paulista de 1924


Isidoro Dias Lopes: um dos líderes do levante tenentista que tomou conta de São Paulo.
Depois do incidente dos “18 do Forte”, que tentou derrubar o governo de Artur Bernardes, os integrantes do movimento tententista pareciam ganhar maior força política. Dessa forma, os oficiais de baixa patente que faziam parte do movimento tentaram articular novos golpes contra o regime oligárquico vigente. Para tanto, buscavam empreender uma série de revoltas militares simultâneas que pudessem forçar a queda do presidente. 




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No dia 5 de julho de 1924, tropas de São Paulo tentaram promover um movimento de caráter nacional que deveria tomar conta de outras importantes cidades do país. Entretanto, a rebelião liderada por Isidoro Dias Lopes conseguiu acender outros focos somente
em Mato Grosso, Amazonas, Pará, Sergipe e Rio Grande do Sul. No estado paulista, a ação tenentista conseguiu tomar pontos estratégicos da capital e atacar o Palácio dos Campos Elíseos, sede do governo estadual. 

O vigor dos ataques militares obrigou Carlos de Campos, presidente do Estado, a fugir de São Paulo. A capital se transformou em um verdadeiro palco de guerra, forçando cerca de 300 mil pessoas a saírem refugiadas. A violência dos bombardeios deixou várias partes da cidade destruída e a ausência do presidente estadual transformou o Palácio do Governo em um foco de resistência tenentista. Entretanto, a falta de apelo popular enfraqueceu o movimento.
 

Em 10 de julho de 1924, os revoltosos divulgaram um manifesto que exigia a imediata deposição do presidente Artur Bernardes e um conjunto de reformas políticas. De fato, os tenentistas não tinham um projeto de poder claramente definido. Suas críticas giravam em torno da corrupção eleitoral que assolava o país, na instauração do voto secreto e a reforma das instituições de ensino. Sem articular um projeto para as maiorias, defendiam a reintrodução dos militares na vida política nacional.
 

Não resistindo à superioridade bélica das forças fiéis ao governo federal, os tenentes paulistas decidiriam deslocar o movimento para outra localidade. No dia 27 de julho de 1924, os militares paulistas romperam o cerco dos exércitos situacionistas, alcançando a região norte do Paraná, na fronteira entre o Paraguai e a Argentina. Depois de conquistarem algumas cidades paranaenses e catarinenses, esses militares decidiram se unir aos militares da Coluna Gaúcha liderada por Luís Carlos Prestes.

 Tenentismo

Luís Carlos Prestes: um dos grandes líderes do movimento tenentista.
O tenentismo foi um movimento que ganhou força entre militares de média e baixa patente durante os últimos anos da República Velha. No momento em que surgiu o levante dos militares, a inconformidade das classes médias urbanas contra os desmandos e o conservadorismo presentes na cultura política do país se expressava. Ao mesmo tempo, o tenentismo era mais uma clara evidência do processa de diluição da hegemonia dos grupos políticos vinculados ao meio rural brasileiro.


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Influenciados pelos anseios políticos das populações urbanas, os militares envolvidos nesse movimento se mostraram favoráveis às tendências políticas republicanas liberais. Entre outros pontos, reivindicavam uma reforma constitucional capaz de trazer critérios mais justos ao cenário político nacional. Exigiam que o processo eleitoral fosse feito com o uso do voto secreto e criticavam os vários episódios de fraude e corrupção que marcavam as eleições.

Além disso, eram favoráveis à liberdade dos meios de comunicação, exigiam que o poder Executivo tivesse suas atribuições restringidas, maior autonomia às autoridades judiciais e a moralização dos representantes que compunham as cadeiras do Poder Legislativo. Entretanto, todo esse discurso liberal e moralizador também convivia com a opinião de alguns oficiais que defendiam a presença de um poder forte, centralizado e comprometido com mal definidas “ necessidades da nação brasileira”.

As primeiras manifestações militares que ganharam corpo durante a República Oligárquica aconteceram nas eleições de 1922. Aproveitando a dissidência de algumas oligarquias estaduais, os tenentes apoiaram a candidatura de Nilo Peçanha em oposição ao mineiro Arthur Bernardes, politicamente comprometido com as demandas dos grandes cafeicultores. Nesse momento, a falta de unidade política dos militares acabou enfraquecendo essa primeira manifestação conhecida como “Reação Republicana”.

Durante essas eleições a tensão entre os militares e o governo aumentou quando diversas críticas contras os militares, falsamente atribuídas a Arthur Bernardes, foram veiculadas nos jornais da época. Com a vitória eleitoral das oligarquias, a primeira manifestação tenentista veio à tona com uma série de levantes militares que ficaram marcados pelo episódio dos “18 do Forte de Copacabana”, ocorrido no Rio de Janeiro, em julho de 1922.

Nos dois anos seguintes, duas novas revoltas militares, uma no Rio Grande do Sul (1923) e outra em São Paulo (1924), mostrou que a presença dos tenentistas no cenário político se reafirmava. Após terem suas pretensões abafadas pelas forças fiéis ao governo, esses dois grupos se juntaram para a formação de uma guerrilha conhecida como Coluna Prestes. Entre 1925 e 1927, esse grupo composto por civis e militares armados entrecortou mais de 24 mil quilômetros sob a liderança de Luís Carlos Prestes.

A falta de apelo entre os setores mais populares, e as intensas perseguições e cercos promovidos pelo governo acabaram dispersando esse movimento. Luís Carlos Prestes, notando a ausência de um conteúdo ideológico mais consistente à causa militar, resolveu aproximar-se das concepções políticas do Partido Comunista Brasileiro. Em 1931, o líder da Coluna mudou-se para a União Soviética, voltando para o país somente quatro anos mais tarde.
Org. Prof. Régis . texto de :
Rainer Sousa ;Graduado em História ; Equipe Brasil Escola


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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

CONTEXTO HISTÓRICO : REVOLTAS DURANTE A REPÚBLICA VELHA


CONTEXTO HISTÓRICO : REPUBLICA VELHA X REVOLTAS



De acordo com diversos estudos historiográficos, o fim do regime monárquico não representou a ascensão de profundas transformações no cenário social brasileiro. Apesar da libertação das populações escravas, a constituição republicana, de 1891, não buscava empreender nenhum tipo de projeto de inclusão social e econômica dessa população historicamente marginalizada. Ao mesmo tempo, a república foi marcada pelo predomínio das elites agro-
exportadoras no poder. 


O novo sistema eleitoral havia extinguido o voto censitário como pré-requisito para o alcance de direitos políticos. Entretanto, a proibição do voto dos analfabetos se tornou um novo item de exclusão de uma grande maioria que não tinha condições mínimas de acesso ao ensino. Além disso, a ausência de leis e um poder exclusivo para legislar sobre as questões eleitorais fizeram com que as primeiras décadas da República fossem gravemente atingidas pela fraude eleitoral. 

Foi nesse contexto que percebemos que o regime republicano gerou no interior de seus costumes uma crise de reconhecimento proveniente dessas populações marginalizadas. Afinal de contas, como seria possível se submeter aos poderes e obrigações de um Estado pouco interessado em atender as demandas daqueles que devia representar? Foi a partir desse impasse que observamos o aparecimento de uma série de revoltas que tomaram conta do país ao longo de
toda República Velha. 


Nessa época, o problema da exclusão sócio-econômica atingiu as populações do campo e da cidade. No meio rural, a hegemonia opressora dos coronéis impulsionavam os camponeses a se aproximarem das alternativas oferecidas pelos líderes messiânicos como José Maria (Contestado/SC), Antônio Conselheiro (Vaza-Barris/BA) e Padre Cícero (Juazeiro/CE). Em situações mais extremas, o chamado banditismo social impulsionava a formação de grupos de  cangaceiros que não reconheciam nenhum tipo de autoridade .


Nos proeminentes centros urbanos, o problema da exclusão era visivelmente fomentado por um governo ainda preso às tradições autoritárias e o perfil conservador dos grandes proprietários. No entanto, a formação da classe operária – influenciada pelo ideário socialista e anarquista – foi responsável pela formação dos primeiros movimentos grevistas e levantes populares, como a Revolta da Vacina de 1904. 


Paralelamente, os militares também mobilizaram sua classe em torno de manifestações contrárias ao poder  oligárquico. A primeira manifestação aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, onde marinheiros tomaram conta de embarcações oficiais ao protestar contra os baixos salários e os castigos físicos combatidos na chamada Revolta da Chibata (1910). Na década seguinte, o interesse político dos militares ganhou maior presença com o movimento tenentista e a formação da Coluna Prestes. 


Todas essas rebeliões davam sinais claros de uma mudança no interior da nação. O Brasil não tinha mais seu campo político restrito ao meio rural , ou seja , o poder não se restringia mais ao campo , pois surgem neste contexto , os centros urbanos ; além das constantes crises na economia que  não mais suportavam um país  “ essencialmente ligado à agro-exportação “ . Paralelamente, a partir de 1914, nota-se  que o crescimento urbano e industrial inseriram novos grupos sociais dotados de interesses e demandas políticas próprias. A partir disso que compreendemos as diferentes revoltas que marcaram essa época.

Adaptado de : Rainer Sousa -  Equipe Brasil Escola

quinta-feira, 29 de julho de 2010

SOCIALIZAÇÃO E RELIGIÃO ... UM ENSAIO PARA NOSSOS PENSADORES !!! .



Por José Magno Macedo Brasil



Desde cedo aprendemos no nosso núcleo familiar que temos ter fé, acreditar na força de Deus que é inquestionável independente de como o concebemos, essa força chamada Jesus irá nos acompanhar em nossa vida nos momentos fáceis e difíceis, nas vitórias e derrotas, nas perdas e nas conquistas, sempre com a força superior, sendo de qual for sua origem de entendimento social e filosófico (evangélico, católico, espírita e outros), o que fica claro é a importância dessa dimensão de religiosidade em nossas vidas. Primeiro na formação da personalidade da pessoa, a crença em uma força superior que vem respaldada por religião independente de sua dimensão desperta em nós valores e princípios que vão nos ajudar a nortear nossa conduta pela nossa história e social, aprendemos dentro do nosso ciclo religioso valores importantes como: caridade, solidariedade, fraternidade, não julgarmos, compreendermos, acreditarmos que fazendo o bem aqui, colheremos o fruto depois na dimensão espiritual e muitos outros valores que ajudam a solidificar e alimenta a formação do caráter e conseqüentemente da personalidade da pessoa outro fator importante além de valores e princípios positivos que religião desperta na pessoa é a socialização.












A religião tem a capacidade de unir as pessoas provocando o sentido de companheirismo criando núcleos sociais e comunitários muito bem com pecados isso é formação social de aceitação das pessoas não levando em conta sua condição socioeconômica, são situações que a religião tem uma excelente capacidade de minimizar as diferenças e conseqüentemente discriminações e preconceitos que existem na sociedade. Falando disso até agora chegamos à conclusão que a religião é uma instituição fundamental dentro daquilo que buscamos como medida sócio-educativa e principalmente como prevenção, junto com a família, a religião exerce um papel importantíssimo para lutarmos contra todos os fatores de risco que socialmente vivemos no nosso país.

A psicologia tem um olhar e uma atenção especial com a religião, desde o livro de Sigmund Freud “Psicopatologia da vida cotidiana” esse gênio e pai da psicanálise nos fala o quanto temos que promover a religião como meio de estruturação da pessoa através de valores e princípios, a sua importância social dentro da formação de uma nova forma de relacionarmos entre nós, com respeito e ética, mas também Freud nos alerta para o lado nocivo da religiosidade de maneira fanática, pois cria-se dentro do fanatismo a alienação e infelizmente em grau elevado pode desenvolver no indivíduo processos psicopatológicos, ou seja, a psicologia a psicanálise constantemente promove a religião, como qualidade de vida, como uma instituição fundamental para construirmos uma sociedade mais justa e igualitária, aonde as barreiras, dos preconceitos, da falta de oportunidades, de alienação social, da exclusão social, possam ser superadas e criamos uma sociedade mais sadia e fraternal, que busquemos dentro de nós a melhor forma de adorarmos nosso Deus, mais que esse sentido cristão esteja dentro de nós, sempre para podermos ter uma vida mais coerente, digna e fraternal, porque a religião é o grande templo que se encontra dentro de nós.

José Magno Macedo Brasil,
Psicólogo com Especialização em Abordagem em Psicanálise

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A IMAGEM E A SUA IMPORTÂNCIA NA CRIANÇA E NO ADOLESCENTE - texto para 1º e 2º ano

O Homem, desde sempre, necessitou de comunicar, ou seja, tornar comum, trocar idéias, expressar opiniões, no fundo partilhar algo com os seus semelhantes. Tendo em conta um período relativamente recente, apareceram os meios de comunicação de massa, vulgarmente designados de mass media, que englobam, entre outros, o cinema, a televisão, a rádio, a imprensa e mais recentemente a Internet que é considerado o maior depósito artístico de sempre. Os mass media são não só um produto da história, mas desempenham, atualmente, um papel muito próprio na formação da história.

DICA : ASSISTA UM BOM VÍDEO SOBRE SOCIALIZAÇÃO E MÍDIA



Hoje, quer consciente quer inconscientemente, os media tornaram-se parte integrante da vida quotidiana dos sujeitos, tendo em conta tanto a perspectiva individual como a perspectiva social. Pode-se então afirmar que os mass media são efetivamente um potentíssimo meio de controlo, de direção e de inovação na sociedade. Os mass media são extraordinariamente poderosos e, perante esse poder os indivíduos encontram-se relativamente indefesos podendo tornar-se "presa fácil" deles. Crianças e mesmo adultos menos preparados podem ser facilmente enganados e manipulados pelos conteúdos dos meios de comunicação, em especial dos conteúdos que se relacionam com a violência, sexualidade, a raça e mesmo a ideologia.
O aparecimento dos meios de comunicação de massas não se deu ao acaso mas resultou da necessidade de veiculação rápida e eficaz da informação que se destina a um elevado número de indivíduos.
A rapidez é uma característica muito importante pois o objetivo deste tipo de comunicação é atingir o maior número de indivíduos no menor espaço de tempo, principalmente se tratar de um acontecimento de importância social relevante. Esse acontecimento é relevante e "absorvido" imediatamente, desatualizando-se no momento seguinte . Um fato ou acontecimento é tanto mais informativo quanto mais inesperado e surpreendente for. A rapidez também é essencial pelo fato de quem chega à noticia primeiro ganha as quotas de audiência , aumenta a sua credibilidade, afirmação e prestígio e conseqüentemente aumenta os lucros inerentes. Mas o demasiado interesse pelo aspecto econômico pode levar à existência de corrupção nos mass media que se reflete na parcialidade da informação que circula (não expondo demasiado os detentores do poder) e na deturpação dos fatos noticiados. As características dos media foram ditadas, ao longo dos tempos, pelo contexto social, processo de comunicação e pelo público (audiência).


DICA : ASSISTA UM VIDEO QUE TRATA DA SOCIALIZAÇÃO E MÍDIA


Harold Lasswell diz que "os valores próprios de uma sociedade são, de fato, reformulados e transmitidos pelos media de forma a constituírem-se como uma verdadeira ideologia(2)". Esta afirmação reflete bem o papel dos mass media na formação das atitudes e opiniões, e a sua função como agentes socializadores. A televisão e o cinema recorrem freqüentemente à utilização de estereótipos que consistem em "imagens ou opiniões aceitas, sem reflexão, por uma pessoa ou grupos ; (...) exprimem juízos de valor simplificados e por vezes errados(3)". O fato de os media apresentarem inúmeros estereótipos "de massa" pode levar à perda de particularidades regionais e à diminuição da criatividade cultural.
A informação tornada comum sobre as pessoas, grupos ou fatos sociais aumenta-lhes ou diminui-lhes o prestígio pelo simples fato de terem despertado a atenção dos media, pois estes procuram acontecimentos o mais informativos possível para causarem um certo impacto no receptor.
Os media podem ser um bom meio de reforço e promoção do controle e coesão social, mostrando, por vezes, comportamentos desviantes, fazendo-lhes a respectiva crítica e a conseqüente condenação social.
A abordagem cultural dos media deve interessar-se pelo público e pela mensagem, tendo em conta o nível de instrução dos diferentes subgrupos da sociedade. A crescente globalização da informação provoca a chamada "colonização cultural" dos países mais ricos sobre os países mais pobres.
Os autores McCombs e Shaw defendem que a função dos media não é impor modelos de pensamento, mas alertar sobre aquilo que se deve pensar.
Os meios de comunicação de massa, particularmente a televisão, têm refletido de forma razoavelmente fiel a mudança social, mas a diferença entre o real e o ideal, na atuação dos media constitui, ainda, um problema de fundo.
A análise dos efeitos (quer diretos quer indiretos) da comunicação dos media foi uma questão que reuniu, ao longo dos tempos, a preferência dos investigadores da «comunicação de massas».Contudo, a maioria parece interessar-se mais pelo grau com que tal influência se manifesta.
Os indivíduos com hábitos de leitura possuem uma maior capacidade de descodificação e retenção das mensagens do que aqueles que apenas usam a televisão como fonte de informação e conhecimento.
A TELEVISÃO : UMA "CAIXINHA DE SURPRESAS"
Talvez não seja demasiado atrevido dizer, e talvez com apoio absoluto da maior parte da população mundial, que a televisão é nada mais nada menos do que o media mais importante no quotidiano das pessoas.
A televisão é cultura para uns e destruição e violência para outros; essa "caixinha mágica" constitui, por um lado, motivo de debate para os adultos, por outro, objeto de culto para as crianças.
A televisão está cada vez mais a fazer o papel dos pais, é uma espécie de "baby sitter" eletrônica que desperta a atenção da criança, acalmando a sua impaciência e irritabilidade. Mas as crianças não são todas iguais e utilizam o televisor para se divertirem e não para se instruírem. Eu penso que esta última informação é pura teoria pois as crianças ao verem televisão interiorizam modelos de comportamento e mesmo valores que tendem a imitar. Este fato pode tornar-se perigoso pelo simples fato de a criança não ver na televisão o seu próprio mundo nem mesmo uma representação real do mundo que a rodeia. Já agora, e só a título de curiosidade, vou passar a referir um exemplo; estudos internacionais publicados na revista TV Guia (números 822 e 823, de 5 a 11 e de 12 a 18 de Novembro de 1994) revelam que "os meninos da escola portuguesa são os que mais horas de televisão vêem por dia; vêem, em média, 3 horas de TV por dia útil e 5 horas aos sábados e domingos. Em média, as crianças dos países participantes(dado que o universo destes estudos foi limitado), vêem cerca de 2 horas de TV por dia útil e 2 horas e meia ao fim de semana. Na média dos países participantes a maioria das crianças vê televisão, nos dias úteis, entre as 17 e as 21 horas, ou seja, quando chegam a casa vindas do infantário. Ao fim de semana, pelo contrário, é sobretudo entre as 9 e as 17 horas que as crianças vêem televisão, pois não vão para o infantário e necessitam de "passar o tempo" de uma maneira divertida. Depois das 21 horas é entre as crianças portuguesas, espanholas e americanas que se encontram mais telespectadores.
As pessoas, por vezes, ou por ignorância ou por conformismo não sabem fazer uma leitura adequada da informação, nem mesmo uma seleção dos programas que devem ou não ver.
O CINEMA : CONDUTOR E MODELADOR DE COMPORTAMENTOS
O cinema apareceu em Portugal durante os "loucos anos 20" encarnando essa nova época de prazer e otimismo com todos os valores e comportamentos a ela ligados. Considera-se esta época como sendo de otimismo, pois apesar das grandes dificuldades de vida nunca houve tanto luxo e tanto gosto pelos divertimentos assim como pelos bens supérfluos.
O cinema começou por consistir em mais uma atração presente em barracas de feira ou mesmo em espetáculos de circo, sendo considerado um divertimento para os pobres. Apresenta-se como sendo um acontecimento social que conquistou, ao longo dos tempos, pessoas de todas as classes sociais.
Atualmente o cinema é um dos marcos da nossa civilização moderna, em constante mutação e em ruptura com o passado.
O indivíduo, aparentemente abandonado e sozinho numa sociedade cada vez mais secularizada e destruída por uma crise de valores praticamente implantada, procura como meio de evasão ao quotidiano a sala de cinema; sala essa que provoca no indivíduo a obsessão e o fascínio pelas novas invenções tecnológicas, pelo fantástico e pela maneira como são abordados os problemas atuais. Ao presenciar-mos um filme no cinema, parece que estamos presentes, que fazemos parte integrante e que somos transportados para o seu interior, levando o indivíduo a fazer um exame de consciência.
Os atores e as personagens representadas por estes unem-se na imaginação dos espectadores que observam os seus modelos de comportamento que, dada a sua freqüente observação, se tornam normais, aceitáveis e, por isso, imitáveis e reproduzíveis; o que leva alguns indivíduos a imitarem e a identificarem-se com um determinado ator ou com aquela personagem que um determinado ator desempenhou naquele filme.
O cinema, como qualquer outra forma de arte, deve pretender uma reprodução o mais fiel possível da realidade e, sendo a mais recente das artes, deve aproveitar a contribuição de todas as outras artes anteriores, acrescentando-lhes algumas novas qualidades. O princípio cinematógrafo baseia-se na seleção que é feita pela câmara e pela montagem sobre o que há a mostrar, e depois é preciso articular as imagens selecionadas, fazendo-as passar num écran.
O cinema não tem por objetivo representar diretamente o movimento e a profundidade, mas sim criar um sistema de seleção de imagens, pertencendo à categoria das imagens fixas. O cinema é um grande divulgador de modelos de comportamento e, como exemplifico positivamente, pode servir de apoio aos valores e sensibilidade humana e mesmo a nível cívico e social, caso se tratem de comportamentos concordantes. Neste sentido ; o cinema pode ser considerado como sendo uma arte extremamente hábil pois baseia-se mais na descrição de acontecimentos em detrimento das descrições verbais.
ESCOLA VERSUS TELEVISÃO
Começa-se por apresentar um fato que é, para muitas pessoas, um fato consumado que não oferece qualquer dúvida: a escola está em crise. Perante uma constatação desta natureza surge naturalmente uma questão: quais os motivos que contribuíram para a o rebaixamento da escola para segundo plano e para a sua entrada em crise que se adivinhava inevitável .
Judith Lazar utilizou uma afirmação que responde, de uma maneira sucinta, a esta questão e diz, grosso modo, que a chegada da televisão tem influência, em estreita relação, e nos evidencia a diminuição do prestígio da escola. Esta afirmação tem razão de ser e é tendo em conta esta pequena mas valiosa informação que se continuará a desenvolver este tema.
A escola quer ignorar essa cultura de "segunda ordem" (televisão) e repudia-a tanto quanto lhe é possível. Ao recusar reconhecer a originalidade da televisão a escola não permite a sua integração no seu programa. A constatação de que a escola está em crise resulta do fato de as crianças recusarem os cursos, as matérias e mesmo os professores (considerados os únicos possuidores do saber, sendo os principais responsáveis pela transmissão do conhecimento), pois vêem neles o símbolo de um sistema deteriorado e ultrapassado com o evoluir dos tempos. Esta recusa resulta do fato de a escola ser considerada como sendo conservadora, repetitiva, rotineira, aborrecida, "cinzenta", monótona e desinteressante. Em oposição a televisão é vista como possuidora de determinadas características: a novidade, a variedade, a mudança, a diversão; é também colorida, policromática, atual e estimulante. A escola tem reputação de ser enfadonha e disciplinada, um lugar onde se "morria" de aborrecimento, enquanto que a televisão tem fama de ser facilmente acessível e distrativa. A escola funciona segundo um ritmo algo parado, entorpecido e estabelecido há vários séculos; o ritmo da televisão aproxima-se mais com a rítmica trepidante e entusiasmaste da época.
A escola traz um saber erudito mais ou menos abstrato, a televisão tenta transmitir a realidade, a possibilidade, tudo aquilo que é tangível e está mais ligado com as aspirações da criança. A criança vai à escola quase para cumprir o "calendário" das obrigações. Depois senta-se em frente do pequeno écran (televisão) para encontrar e tentar descobrir um universo mais compatível com o seu mundo.A televisão já não é uma mera ocupação dos tempos livres, mas um fenômeno social que provoca mudanças fundamentais na vida dos indivíduos.


RAZÕES PELAS QUAIS A IMAGEM TEM TANTA FORÇA NA CRIANÇA E NO ADOLESCENTE
Para melhor entender esta questão pensa-se que seja necessário e oportuno observar e registrar, grosso modo, o que a psicologia tem para nos dizer relativamente á criança e ao adolescente. A criança quando nasce é uma "tábua rasa" que vai consecutivamente apreendendo informação resultante das sucessivas experiências vividas em contacto com o meio.
Podería-se dizer, que a imagem influencia indubitavelmente a criança pois é nesta fase da sua vida (infância) que o indivíduo está mais apto a assimilar as informações provenientes de todos os meios, seja qual for a sua natureza, com os quais se defronta diariamente. A criança, ao efetuar as primeiras comunicações ou associações, revela a chegada da função simbólica pois a criança enquanto não domina a linguagem verbal pensa através da associação de imagens a símbolos ou sinais que ela própria cria. Desde a nascença até aos seis anos de idade a capacidade de concentração da criança durante um longo período de tempo é muito reduzida. A partir dos seis anos é implantada na criança a "febre da imagem" pois ela pode permanecer horas olhando fixamente o écran, não realizando qualquer outra atividade, o que pode provocar a sua envolvência no imaginário.
Mas, o tema do trabalho, envolve uma outra etapa da vida humana- a adolescência. O jovem, á medida que ultrapassa todas as crises, vai construindo algo muito seu que lhe permite garantir a sua própria individualidade e singularidade distinguindo-o dos demais. Durante a busca de uma identidade própria a juventude adapta modos de gerações antigas o que lhe interessa e acrescenta-lhe algo que faz parte das suas características e ambições. A adolescência é um período de espera e de aprontamento para enfrentar a vida adulta, mas também uma idade onde o indivíduo se questiona acerca da sua identidade e do mundo que o rodeia; o jovem sofre uma crise de identidade, cheia de conflitos e tensões, necessitando imperiosamente de se esclarecer e de traçar projetos futuros. Tudo isto confere ao jovem uma personalidade frágil o que, por vezes, provoca um sentimento de evasão perante o mundo que o rodeia que é incapaz de o compreender.
Apresenta-se também como sendo pertinente o esclarecimento do conceito de imagem. Segundo Jean Piaget "a imagem, ainda que proceda de uma imitação motora, não representa atos mas estados, pois os atos não podem ser figurados senão por uma sucessão de imagens estáticas; (...) a imagem é uma espécie de esquema ou cópia resumida do objeto percebido e não a continuação da sua vivacidade sensorial". No entanto esta definição não nos é muito útil pois não pretendemos falar de imagem mental mas de imagem enquanto parte integrante da informação transmitida pelos mass media e que nos permite visualizar alguns acontecimentos.
Esclarecidas as características da criança e do jovem vou passar a referir que o principal receio dos adultos é que esta insegurança faça despertar o jovem para o consumo desenfreado de drogas e para o sexo tendo como ponto de partida as imagens observadas nos media.
Porque é que será que a imagem é tão importante ? A imagem assume relevada importância, principalmente na televisão e no cinema, pois possui características muito importantes como o jogo e a seleção das cores, a sensação de movimento, os ruídos , a música, as palavras, os gritos e gargalhadas; tudo isto priva a criança de pensar, pelo fato de as imagens serem imediatas, não cansativas e, por isso, de fácil memorização. A imagem faz acionar os sentidos da criança apelando á sua concentração e atenção. Posso acrescentar que a mensagem visual (imagem) é mais simples, mais universal e retrata de uma forma mais real os acontecimentos do que a mensagem escrita. É muito mais entendível se visualizarmos imagens de um determinado acontecimento do que se o relatarmos por escrito.
Mas será que a imagem só tem aspectos positivos? O aspecto que eu vou apresentar seguidamente evidencia não só uma faceta que poderá vir a ser negativa mas principalmente uma necessidade; é necessário saber ler e interpretar a imagem, esclarecendo a criança sobre imagens mais controversas que possam surgir, para evitar interpretações erradas por parte da criança e também do adolescente. A criança pode não compreender tudo o que vê em toda a sua complexidade, a experiência nova costuma causar-lhe confusão e medo, o que não implica que, a curto prazo, ela comece a gostar. As imagens recolhidas pela criança têm um papel preponderante na sua formação e nos seus comportamentos futuros.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Durante a elaboração deste trabalho concluiu-se que a televisão e o cinema são dois mass media muito importantes principalmente pelas características que possuem e que foram referidas na devida altura, o que leva a que criança e também o adolescente se sintam atraídos pelo fascínio da imagem.
A criança substitui a falta de criatividade e a rigidez da escola pela beleza da cor e do movimento da televisão. O desenvolvimento económico e particularmente o tecnológico têm permitido aos media não só uma cobertura mais ampla dos públicos, mas também a satisfação de necessidades específicas incluindo as culturais. A crítica aos programas que os mass media transmitem deixam de ter sentido pois os mass media só transmitem os programas que as pessoas querem ver.
Nas sociedades ocidentais a falta de tempo disponível das famílias para os filhos leva a que os mass media tenham um papel mais marcante como agentes de socialização fornecendo modelos de referência ao indivíduo.A relativa escassez de tempo não me permitiu aprofundar mais os temas, mas espera-se ansiosamente uma outra oportunidade. Este trabalho foi muito útil e enriquecedor não só a nível conceitual, mas também no alargamento do âmbito cultural.

FAMILIA , ESCOLA E MIDIA : OQUE MUDOU NA SOCIALIZAÇÃO NOS DIAS DE HOJE - TEXTO PARA O 1º E 2º ANO- SOCIOLOGIA

Família, escola e mídia: um campo com novas configurações Maria da Graça Jacintho Setton - Universidade de São Paulo
Resumo : Este artigo tem como objetivo refletir sobre a particularidade do processo de socialização e de construção das identidades dos sujeitos no mundo contemporâneo. Para desenvolver este argumento o texto se apoia na idéia de que as instâncias tradicionais da educação  família e escola  partilham com as instituições midiáticas uma responsabilidade pedagógica. Identificando uma nova estruturação no campo da socialização, busca-se uma perspectiva relacional de análise entre essas instâncias a fim de apreender a especificidade do processo de construção da identidade do sujeito na atualidade. Partindo do conceito de configuração de Norbert Elias, toma-se como hipótese que a cultura da modernidade imprime uma nova prática socializadora distinta das demais verificadas historicamente. Considera-se que o processo de socialização das formações atuais é um espaço plural de múltiplas referências identitárias. Ou seja, a modernidade caracteriza-se por oferecer um ambiente social em que o indivíduo encontra condições de forjar um sistema de referências que mescla as influências familiar, escolar e midiáticas (entre outras), um sistema de esquemas coerente, no entanto híbrido e fragmentado. Nesse sentido, a particularidade dessa socialização deriva não só da relação de interdependência entre as duas instâncias tradicionais da educação, mas da relação de interdependência entre elas e a mídia.
Introdução : A contemporaneidade caracteriza-se por ser uma era em que a produção de bens culturais, a circularidade da informação, ocupa um papel de destaque na formação moral, psicológica e cognitiva do homem. Trata-se de uma nova ordem social regulada por um universo cultural amplo e diversificado, embora fragmentado. Convivemos em uma formação social cujo paradigma cultural mundializado constitui uma realidade inexorável.
No caso do Brasil, mais especificamente, desde os anos 1970, a sociedade vem convivendo com a realidade dos meios de comunicação de massa de maneira intensa e profunda. Pouco letrada e urbanizada, em algumas décadas, a população brasileira viu-se imersa em uma Terceira Cultura, como diria Edgar Morin  a cultura da comunicação de massa , que se alimenta e sobrevive à custa das culturas de caráter humanista  nacional, religiosa e escolar (Morin,1984).
É forçoso observar que os debates educativos, à medida que se aproximam da especificidade das transformações culturais do mundo moderno, se abrem para o caráter interdisciplinar das questões educacionais. A escola como instituição, seus currículos, professores e profissionais da educação em geral, não podem deixar de se preocupar com as peculiaridades da prática educativa contemporânea. Ou seja, a educação no mundo moderno não conta apenas com a participação da escola e da família. Outras instituições, como a mídia, despontam como parceiras de uma ação pedagógica. Para o bem ou para o mal, a cultura de massa está presente em nossas vidas, transmitindo valores e padrões de conduta, socializando muitas gerações. Em uma situação de modernidade, faz-se necessário problematizar as relações de interação, conflitivas ou harmoniosas, entre os espaços socializadores e agentes socializados.
Embora com diferentes propostas pedagógicas, é possível identificar um ponto em comum entre as instâncias distintas e heterogêneas de socialização. Tendem a "formar", buscam modelar a estrutura de pensamento dos indivíduos ao difundir uma concepção de mundo a partir de uma gama variada de formas simbólicas (Lahire,1998; Thompson,1995; Kellner, 2001).
O processo de socialização pode ser considerado então como um espaço plural de múltiplas relações sociais. Pode ser considerado como um campo estruturado pelas relações dinâmicas entre instituições e agentes sociais distintamente posicionados em função de sua visibilidade e recursos disponíveis. Portanto, o processo de socialização deve ser compreendido como um fenômeno histórico complexo e temporalmente determinado.
Embora não seja apropriado conceber um modelo único de família, de escola e/ou de mídia, é possível considerar que cada uma dessas instituições pauta-se por propósitos e princípios distintos. Ou seja, por possuírem naturezas específicas, são responsáveis pela produção e difusão de patrimônios culturais diferenciados entre si. É necessário, pois, identificar a configuração, o arranjo particular entre elas, em uma perspectiva antropológica, para se apreender experiências específicas de socialização.
Nesse sentido, este artigo visa centralizar a discussão sobre a particularidade do processo de socialização contemporâneo tendo em vista as relações de interdependência entre as instâncias educativas. Visa compreendê-las a partir de um método dinâmico e relacional a fim de evitar superestimar o poder de cada uma delas ou reificar a presença de um indivíduo passivo e pouco participativo nas interações socializadoras.
Sabemos o quanto é comum generalizações sobre os efeitos negativos das mensagens midiáticas (Kehl, 1995, 2000; Bucci, 2000, 2001;Postman, 1999). Tais leituras deixam de caracterizar a complexidade de apropriação dos conteúdos dos produtos da indústria cultural. Mais do que isso, grande parte das críticas, dando apenas ênfase à dimensão da produção midiática, esquece de considerar a variedade do universo familiar e escolar da contempora-neidade. Pouco problematizando as tensas relações entre as várias instâncias produtoras de bens e valores culturais, parte desta crítica acaba por reduzir os indivíduos a meros receptáculos de idéias ou simples consumidores de cultura. A perspectiva da homogeneidade cultural há muito deixou de ser produtiva para a discussão do fenômeno da cultura de massa (Ortiz, 1988; Barbero, 1997; Canclini, 1998). A segmentação do mercado, a diversidade de habitus e estilos de vida (Bourdieu, 1998, 1999), ou seja, a variedade de usos e apropriações das mensagens (Lahire, 1997, 1998) parece ser mais adequada para se pensar a realidade da socialização contemporânea.
A intenção é, portanto, chamar atenção para a complexidade da prática socializadora da atualidade, enfatizando a rede de tensão, a luta simbólica entre as várias instâncias educativas.
Uma proposta de análise : Posto isto, seria importante reiterar os objetivos desta reflexão. Ou seja, o interesse em analisar o processo de socialização considerando a emergência de uma nova configuração cultural, de acordo com a qual o processo de construção das identidades sociais passa a ser mediado pela coexistência de distintas instâncias produtoras de valores e referências culturais.
A proposta é considerar a família, a escola e a mídia no mundo contemporâneo, como instâncias socializadoras que coexistem numa relação de interdependência. Ou seja, são instâncias que configuram uma forma permanente e dinâmica de relação. Não são estruturas reificadas ou metafísicas que existem acima e por cima dos indivíduos (Elias, 1970).1 São instituições constituídas por sujeitos em intensa e contínua interdependência entre si e, portanto, não podem ser vistas como estruturas que pressionam umas às outras, mas instân-cias constituídas por agentes que se pressionam mutuamente no jogo simbólico da socialização.
Como é possível apreender que essas instâncias, devido à sua interdependência e ao modo como as suas ações educativas e experiências pedagógicas se interpenetram, formem um tipo de configuração? É necessário identificar o arranjo variado, a relação de forças e equilíbrio entre elas a partir da experiência de socialização de sujeitos particulares (Lahire, 1997).
O conceito de configuração aqui utilizado serve como um instrumento conceptual e didático que tem como intenção romper com a idéia de que as instituições socializadoras e seus agentes sejam antagônicos. Salientar a relação de interdependência das instâncias/agentes da socialização, condição para coexistirem enquanto configuração, é uma forma de afirmar que a relação estabelecida entre eles pode ser de aliados ou de adversários. Podem ser relações de continuidade ou de ruptura. Podem então determinar uma gama variada de experiências de socialização.
Pensar as relações entre a família, a escola e a mídia com base no modelo de configuração é analisar tais instituições sociais em uma relação dinâmica criada pelo conjunto de seus integrantes, seus recursos e trajetórias particulares. No entanto, não é uma relação dinâmica entre subjetividades, mas uma dinâmica criada pela relação que esses sujeitos constroem na totalidade de suas ações e experiências, objetivas e subjetivas, que mantêm uns com os outros.A metáfora do jogo, embora imperfeita, é bastante produtiva para exemplificar a dinâmica das configurações das agências e os agentes da socialização. Ou seja, ao usá-la é como se as pressões ou coações que as instâncias sofressem umas em relação às outras fossem pressões que têm origem na relação de interdependência, no jogo de ação e reação entre seus agentes (Elias, 1970).
É preciso salientar, pois, um certo equilíbrio de forças entre as instâncias socializa-doras no mundo contemporâneo, já que a interdepen-dência funcional entre elas é uma condição para o exercício e continuidade do processo de so-cialização dos sujeitos. Pensar as relações entre a família, a escola e a mídia (e seus agentes) com base no conceito de configuração é buscar compreender o equilíbrio de poder entre elas, é entender o poder (enquanto relação) como uma característica estrutural das relações entre grupos e instituições (Elias, 1970). Assim, seria pertinente perguntar quais os recursos de cada uma delas (e de seus agentes), quais os poderes constitutivos desses espaços de socialização responsáveis pelo equilíbrio de força nessa configuração? É nesse sentido que se propõe a identificar os arranjos particulares, as vivências específicas de sujeitos singulares.Para concluir, uma contextualização temporal e histórica é necessária para se apreender o jogo de forças entre os parceiros ou adversários, um em relação ao outro. Analisar a relação de coexistência das instâncias ou agentes socializadores a partir da idéia de equilíbrio conjuntural é conveniente pois nos leva a apreender as relações funcionais que eles mantêm entre si. Ou seja, permite apreender as relações singulares e particulares de diferentes configurações de força entre sujeitos e instituições, tal como as variações do desenho de um caleidoscópio.
Apreendendo as relações
A herança familiar : Grosso modo, no contexto do processo de socialização, pode-se considerar a família a partir de dois enfoques. O primeiro deles refere-se à abordagem psicológica. Ou seja, a família como espaço de relações identitárias e de identificação afetiva e moral (Berger; Luckman, 1983). É possível por meio dessa abordagem observar ainda as relações de autoridade, as hierarquias internas tendo em vista os modelos geracionais ou de gênero. É nesse espaço de convivência sangüínea e afetiva que se modela uma subjetividade, que se toma contato com as primeiras formas simbólicas de integração social (Singly, 2000a, 2000b; Dubar, 2000). Inicialmente tomados como absolutos, os valores familiares são os mais permanentes em todo o processo de socialização.
A família pode também ser considerada como responsável pela transmissão de um patrimônio econômico e cultural (Bourdieu, 1998, 1999). É nela que a identidade social do indivíduo é forjada. De origem privilegiada ou não, a família transmite para seus descendentes um nome, uma cultura, um estilo de vida moral, ético e religioso. Não obstante, mais do que os volumes de cada um desses recursos, cada família é responsável por uma maneira singular de vivenciar esse patrimônio (Lahire, 1997, 1998). Assim, é necessário observar as maneiras de usar a cultura e de relacionar-se com ela, ou seja, as oportunidades de um trabalho pedagógico de transmissão cultural, moral e ético de cada ambiente familiar.
Fenômeno universal, é possível afirmar que a família é uma instituição que evolui conforme as conjunturas socioculturais. Não é um agente social passivo. Sua história recente revela um poder de adaptação e uma constante resistência em face das mudanças em cada período. Tem uma profunda capacidade de interagir com as circunstâncias e conjunturas sociais contribuindo fartamente para definir novos conteúdos e sentidos culturais (Saraceno, 1988). Se nos séculos XIX e XX foi comum falar sobre a crise da família, na década de 1990 surgiu a concepção da família contemporânea forte e resistente. Novos modelos de convivência familiar apontam para uma nova configuração entre seus membros. A tendência atual é analisar as relações de convivência, os sentimentos, as representações sobre casais e filhos em situação de igualdade (Singly, 2000; Segalen, 1999a, 1999b; Figueira, 1992). Nesse contexto de transformação, a autoridade familiar como primeira forma de respeito a uma instância ligada à tradição vem sendo questionada. A reestruturação familiar  conseqüência da reorganização dos papéis  é responsável por um período de redefinição das posições de autoridade. O modelo familiar, já há algumas décadas, vive transformações graduais mas extremamente profundas, dado que a inserção da mulher no mercado de trabalho e o aumento dos níveis de separação de casais contribuem para a emersão de um novo padrão de convivência e referências identitárias. Estariam os jovens igualmente sujeitos às experiências paternas e maternas no contexto contemporâneo? Ou essas transformações fragilizariam as estruturas familiares abrindo brechas para novas experiências de socialização?
Considerando a família como um importante elemento na determinação dos destinos pessoais e sociais, nas trajetórias educacionais e profissionais dos sujeitos é preciso atentar para a heterogeneidade de configurações familiares, a diversidade de recursos e posicionamentos sociais, bem como a diversidade de comportamentos e relações que podem estabelecer com as outras instâncias socializadoras.
A socialização escolar : Com poucas discordâncias, desde as reflexões de Durkheim (1947) até hoje (Nóvoa, 1991), a escola sempre foi vista como responsável pela transmissão de um saber consagrado, útil para a manutenção de uma ordem baseada na divisão do trabalho social. No passado, a escola sempre apresentou a tendência de introduzir barreiras entre seus níveis e respectivos públicos (Goblot, 1984). Ambígua por natureza, a escola é responsável também pela expansão do acesso ao conhecimento ao mesmo tempo em que pode contribuir para o fortalecimento de um saber restrito a poucos (Bourdieu, 1998).
Atualmente, considerando uma realidade mais contemporânea, é possível identificar uma complexidade maior no interior do sistema escolar (Dubet, 1996). A escola para as massas não mais propaga uma coerência em seus projetos educativos. Se anteriormente a escola era regulada de maneira muito firme, com públicos e projetos educativos homogêneos, hoje a diversidade de expectativas e aspirações dos estudantes mesclam-se à heterogeneidade das propostas educativas de escolas e professores. A massificação escolar modificou a forma de distribuição das qualificações. Embora, oficialmente, todos tenham acesso a ela, as trajetórias estudantis, os usos do saber escolar variam de acordo com as experiências de vida  familiar, escolar e midiática  dos indivíduos (Lahire,1997, 1998). Ainda que ofereça os meios de se referir às regras, aos preceitos, ou seja, às prescrições legítimas do conhecimento, o sistema escolar contemporâneo caracteriza-se por uma contraditória hierarquia interna (Bourdieu, 1998).
Dessa forma, a escola não mais se apresenta como eixo organizador de experiências; reflete, em seu interior, uma complexidade de interesses intra e extra-escolares (Dubet,1996). Não responde mais ao projeto integrador de Durkheim (1995). Não consegue conciliar as suas antigas funções de educar (transmitir valores), selecionar (qualificando distintamente o público) e socializar (adaptá-los a uma realidade social). Não deixando de ser uma instituição do saber e da produção do conhecimento, a escola perde seu papel organizador, pois não detém mais o monopólio das referências identitárias (Dubet, 1996). Sujeita a uma variedade de público e pouco preparada para enfrentar os desafios que cada um deles lhe propõe, a escola se enfraquece enquanto agência da socialização, responde e serve de forma fragmentada às expectativas diferenciadas de seu público.
A socialização descontextualizada : As instâncias midiáticas de socialização são por definição multiformes. Fenômeno recente, a cultura de massa é responsável pela circularidade de uma gama variada de imagens, códigos e conteúdos que se organizam coerentemente na forma de um sistema integrado de símbolos interdependentes aos valores escolar e familiar (Morin, 1983). Todavia é possível pensar também o fenômeno da cultura de massa a partir de três dimensões  a produção, a recepção e a difusão (Thompson, 1995) , na medida em que essas dimensões contribuem para refletir sobre o processo de socialização no mundo contemporâneo.
Grosso modo, por produção entende-se todo o aparato técnico, o conteúdo das mensagens e os recursos humanos que estão envolvidos com a criação midiática. Ou seja, é a produção de símbolos, discursos e imagens das instituições e agentes de um determinado contexto cultural. Em síntese, é possível pensar a criação cultural específica da era da comunicação de massa a partir de um modelo sistêmico e coerente de administração que obedece à racionalidade da acumulação capitalista (Adorno; Horkheimer, 1996). Competitividade e lucro são as palavras de ordem da engrenagem. Contudo, se ainda hoje o grande paradigma sobre a dimensão produtiva da indústria cultural é a perspectiva frankfurtiana da homogeneização da cultura e do caráter ideológico de suas mensagens, aos poucos ela vem perdendo espaço para as teorias da recepção.
A partir dos anos 1960, vê-se a emergência dos estudos que relativizam o caráter manipulador da cultura de massa, introduzindo o debate sobre certas formas de resistência (Hoggart, 1976; Certau, 1994). Mais recentemente, vários estudiosos (Barbero, 1997; Canclini, 1998) salientam ainda a capacidade de os sujeitos apropriarem-se das mensagens, construírem sentidos particularizados ao consumirem as mercadorias simbólicas. Além disso, desenvolveu-se certo consenso de que as formas simbólicas midiáticas não são necessariamente ideológicas. Ao contrário, seria preciso observar as maneiras pelas quais os sentidos são mobilizados para reforçar e criar situações de dominação. Os estudos de recepção salientam ainda que a apropria-ção dos bens culturais midiáticos é um processo complexo que envolve uma atividade contínua de interpretação e assimilação do conteúdo significativo a partir das características de uma experiência socialmente estruturada de indivíduos e grupos particulares (Thompson, 1995; Kellner, 2001). Assim, é possível pensar que a noção de recepção não dimensiona o trabalho de apropria-ção e de construção efetuado pelos indivíduos, não explora a inevitável transformação de sentidos do processo de transmissão; não consegue conceber as freqüentes situações em que algo se transmite ou se constrói sem que alguma intenção pedagógica tenha sido visada (Lahire, 1997, 1998). Nesse contexto, a configuração de forças entre as instâncias família e escola, síntese de experiências passadas do indivíduo, torna-se fundamental para se refletir sobre os poderes midiáticos no processo de construção de suas identidades.
Por último, sabe-se que a cultura de massa ao circular informação e entretenimento transmite também valores e padrões de conduta diversificados. Considerar o caráter pedagógico da cultura de massa é salientar que a ampla circularidade dos bens culturais juntamente com a difusão das informações contribuem para o surgimento de novas formas de interação educativa (Giddens, 1994). É possível pensar os sujeitos sociais podendo orientar suas práticas e ações, podendo refletir sobre a realidade, construí-la e experimentá-la a partir de outros parâmetros que não sejam mais exclusivamente locais, presentes na escola e na família. Assim, as trajetórias individuais e coletivas não seriam mais definidas, traçadas e vividas apenas a partir de experiências próximas no tempo e no espaço. Ao contrário, os sujeitos teriam contatos, seriam atingidos por modelos e referências produzidos em contextos fisicamente distantes e dispersos. É possível, pois, identificar a orientação das práticas estimuladas por referências identitárias pulverizadas, mas apropriadas por todos, numa configuração única, sujeita aos condicionamentos sociais, às experiências vivenciadas no universo familiar e escolar, produto da interdependência entre as agências da socialização.
Considerações finais : A proposta de compreensão sobre a particularidade do processo de socialização do mundo contemporâneo empreendida neste artigo enfatiza a observação e a reconstrução da variada e heterogênea rede de interdependências entre a família, a escola e a mídia na atualidade.
A opção por uma perspectiva microes-trutural de análise busca resgatar uma abordagem dos processos de construção das referências identitárias via uma rede de relações e interações entre essas instâncias da socialização. Nesse sentido considerou-se evitar a absolutização das influências de cada uma delas a partir de um modelo relacional.
Se a família, a escola e a mídia podem ser consideradas como redes de interdependência estruturadas por relações sociais específicas, os produtos da socialização  ou seja, os sujeitos, suas práticas e escolhas  podem ser apreendidos como o resultado de uma maior ou menor ruptura e/ou continuidade entre tais instâncias.
É necessário, então, enquanto método, construir configurações particulares, combinações específicas entre uma multiplicidade de traços gerais entre os agentes socializadores.
Assim, a intenção foi apresentar os princípios básicos que explicitam a lógica relacional da noção de configuração, tendo como motivação compreender um novo campo de interações entre as instâncias da socialização. Em seguida, apontando os elementos que apresentam a realidade contemporânea dos espaços de socialização tradicionais, deu-se ênfase às recentes transformações ocorridas, podendo perceber que grande parte dessas transformações deriva das relações de interdependência entre essas instâncias  família e escola  e a emergência da cultura de massa.
A abordagem micro-sociológica, esta perspectiva do singular proposta, permite observar mais atentamente a variedade infinita de configurações das instâncias socializadoras responsáveis pela produção de disposições sociais identitárias. Este olhar tenta romper com as análises que interpretam as experiências individuais generalizando-as, tenta rediscutir as afirmações simplistas da falência das instituições tradicionais da socialização ou da força inexorável das instâncias midiáticas. O que se propôs foi salientar a grande variedade de configurações familiares que, por sua vez, se entrelaça com uma heterogeneidade quase infinita de projetos escolares, ambos imersos em uma ordem cultural plural e mundializada (Ortiz, 2000). Por fim, é necessário, pois, atentar para a composição de um novo campo da socialização em processo. É preciso focalizar melhor a variedade de configurações particulares, combinações de equilíbrio específicas entre uma multiplicidade de traços gerais entre os agentes socializadores responsáveis pela construção de sujeitos em formação.
Maria da Graça Jacintho Setton é doutora em Sociologia pela FFLCH-USP e fez pós-doutorado na École de Hautes Études en Sciences Sociales, Paris, França. É professora do curso de Pedagogia, de Licenciatura e da pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.